Sem radar, controle de aeronaves é precário em Vitória

 

As obras no aeroporto de Vitória ainda não decolaram, mas esse não é o único motivo de preocupação para quem usa o terminal aéreo. Muito além do conforto em terra, é a segurança dos passageiros no ar que está em jogo. E a denúncia parte justamente das pessoas que trabalham reduzindo riscos de conflitos e otimizando o tráfego aéreo: os controladores de voos.

O fato de a instalação de um Radar para Controle de Aproximação (APP) ter ficado só na promessa tem tirado o sono de muita gente. Sem esse aparelho, explicam profissionais, o risco de um desastre aéreo é real.

A normatização feita pelo Instrução do Comando da Aeronáutica (ICA) de 2008 diz que o radar é necessário em aeroportos cujo número de voos seja superior a 45 mil por ano. Em 2007, o movimento em Vitória já era maior. E a estimativa para este ano é de que chegue a 60 mil.

Perigo

Mas o controle das aeronaves no espaço aéreo capixaba é precário. O controlador tem que usar a imaginação para mapear as aeronaves, denuncia o Sindicato Nacional dos Aeroportuários (Sina). “Olhamos para o ponto luminoso e tentamos identificar qual é a aeronave, de forma intuitiva. Não se sabe, com precisão, onde está o avião”, diz o delegado representante do sindicato, Antonio Sérgio Marcelino Dias. “Temos que controlar o incontrolável”, admite.

Segundo Dias, o equipamento proporcionaria a visão em tempo real de onde as aeronaves se encontram, evitando o risco de uma grande tragédia. “Promete-se, promete-se, mas ainda não existe uma data efetiva para que o equipamento seja instalado aqui”, desabafa Antonio Sérgio.

Raio

De forma geral, os controladores monitoram os aviões em pousos e decolagens. O problema é que em Vitória o equipamento disponível permite a visualização em uma raio de apenas 15 quilômetros.

Já com o radar seria possível verificar com exatidão a posição das aeronaves em até 80 quilômetros do aeroporto. Além da Capital, Aracaju (SE), Goiânia (GO), Navegantes (SC) e Uberaba (MG) passam pelo mesmo problema, segundo o Sina.

“Por conta disso, é rotina aviões passarem bem perto uns dos outros por aqui. Já houve vezes de o piloto estar perdido e solicitar uma direção, mas não conseguimos ajudar muito sem o radar”, conta o controlador de voo X. Por medo de represálias, ele preferiu não divulgar seu nome.

O horário mais crítico é entre 6h30 e 9h30, quando chegam ao aeroporto de três a quatro voos vindos do Rio de Janeiro e de São Paulo; outros três ou quatro vindos de Belo Horizonte, Brasília e Goiânia; e dois do Nordeste. Fora os helicópteros e aviões particulares.

Alçar voos mais altos rumo ao desenvolvimento e à segurança fica ainda mais difícil quando chega-se à torre de comando. Construída na década de 1940, é considerada uma “espelunca” pelos trabalhadores. “Todas os profissionais dividem um mesmo espaço, e a mistura de informações compromete a segurança do trabalho”, explica Antonio Sérgio.

Abalados

Não bastassem as falhas estruturais, a pressão psicológica gerada pelo estresse da profissão tem ocasionado um problema ainda maior em Vitória. Dos 38 controladores de voo que atuam na Capital, pelo menos 15% sofrem com algum distúrbio psicológico: apresentam depressão ou alguma doença que compromete sensivelmente o desempenho da profissão.

Antonio Sergio conta que, recentemente, um dos colegas teve de abandonar a função por conta dos distúrbios. “E outros estão na fila”, garante.

X. destaca que é justamente no período mais crítico da manhã que os controladores sofrem. “Quando o avião sai do campo visual é que pinta o problema. Temos que fazer contas de qual dos oito ou nove aviões vão pousar, como e onde, tudo isso feito mentalmente”, diz ele.

Y., piloto de avião com mais de 5 mil horas de voo – e que também preferiu não se identificar -, confirma a dificuldade de pouso em Vitória. “Além da pista ser muito curta para operações de aeronaves de grande porte, ainda não foi instalado o equipamento de precisão chamado ILS (Instrument Landing System), que ajudaria e muito em condições meteorológica adversas”, diz ele.

A instalação do ILS já virou novela. Desde abril deste ano, o equipamento, comprado pela Aeronáutica e orçado em 1,3 milhão de euros (cerca de R$ 3 milhões), aguarda uma definição sobre sua instalação. A previsão agora é de março do ano que vem. O prazo, adiado várias vezes, deve ser ainda maior, já que é preciso, ainda, que sejam feitas obras de terraplenagem no aeroporto.

Y. vai além. “Já aconteceu de pousarmos em Vitória e de não ter vaga no pátio para estacionar o avião. Não deixaram que a gente pernoitasse lá e tivemos que ir para o Sul da Bahia, até liberar uma vaga. Isso é ridículo. Fica claro que ainda temos um aeroporto da década de 1970 com equipamentos bem ultrapassados”, ressalta o piloto.

Infraero: equipamento está aprovado, mas não há prazo

Uma equipe do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) já emitiu parecer favorável à instalação de radar no Aeroporto de Vitória, segundo a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). O grupo esteve na Capital em junho, para escolha do ponto onde será instalado o equipamento, de responsabilidade de Aeronáutica. A Infraero não deu, no entanto, uma previsão de prazo para instalação do equipamento.

Tal como no caso do radar, cabe à Infraero montar a preparação do terreno para receber o ILS (Instrument Landing System). A obra de terraple nagem teve início na semana passada, com 90 dias para conclusão.

A Infraero assegura que a ordem de serviço para a retomada das obras de construção da nova Torre de Controle e Grupamento de Navegação Aérea do Aeroporto de Vitória – orçadas em R$ 2 milhões – deve ser assinada em 22 de outubro. O prazo de conclusão é de 165 dias a partir do início. O projeto prevê uma das torres mais modernas do país.

Tudo bem

Mesmo assim, o órgão afirma que a atual torre opera com equipamentos e softwares utilizados nas torres de controles dos mais modernos aeroportos do Brasil.

Sobre a queixa dos controladores de voo das condições de trabalho, a Infraero considera que o atual efetivo atende plenamente à demanda do tráfego aéreo existente.

Afirma que eles trabalham quatro dias consecutivos e folgam no subsequente, não ultrapassando 144 horas mensais, e são avaliados anualmente por médicos da Aeronáutica. “Caso haja alguma restrição, são afastados das atividades para tratamento”.

A Aeronáutica foi procurada, mas até o fechamento desta edição, não deu retorno à reportagem.

Fonte: http://gazetaonline….reo-e-real.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s